Tem certos
dias que não é bom abrir os olhos.
Aconteceu com Carlos. Abriu os olhos, observou o relógio de cabeceira,
ele marcava 08h30min e piscava ininterruptamente. Deu um pulo da cama e
esbravejou:
_ Droga!
Acabou a força no prédio de novo! Vou chegar atrasado mais uma vez, seu Joaquim
me manda embora hoje. Eita português arretado!
Enquanto
reclama, corre ao banheiro, escova os dentes, lava o rosto e em pensamento
continua seu diálogo consigo mesmo:
_ Eu mereço
um banho. O 2352 só vai passar às... mas que horas são? Corre até o quarto,
encontra seu relógio de pulso:
_ DEZ E
TRINTA, O PORTUGA INFARTOU!
Volta ao
banheiro, tira a roupa, abre o chuveiro e se posta debaixo d’água. A campainha toca, o toque se repete
longamente. Sai apressado, enrola-se na toalha, o som persiste, para
abruptamente, mas mesmo assim dirige-se a porta. Abre a porta e encontra um
corpo caído a porta.
_ Diabos!
Tem certos dias que não é bom abrir os olhos. Olha para o corredor, ninguém. O elevador fechado, com suas portas seladas e
nenhum barulho. Debruça-se ao corpo.
_ Nada de
respiração! Pulso? Nenhum. Meu Deus! Que
faço?
Fecha a
porta, pega o telefone, sem linha. Procura
utilizar o interfone, toca, toca, ninguém atende. Repete novamente:
_ Tem certos
dias que não é bom acordar! Tenta o telefone novamente, nada. O interfone:
_Ô Moacir!
Ninguém trabalha nesta portaria. Tem um presunto na minha porta.
_ Seu Carlos
monta um lanche pra mim, então!
_ Deixa de
besteira. É sério. Há um defunto na minha porta.
_ Quem matou?
O senhor conhece a vítima?
_ Que isto,
Moacir! Interrogatório? Chama a polícia para resolver o caso. Tô só de toalha,
atrasado e quero que tirem o corpo da frente do meu apartamento.
_Seu Carlos!
Quem diria...além de matar o novo caso amoroso, quer fugir da cena do crime.
Coisa feia!
_ Deixa de
besteira. Estava no banho, a campainha tocou, fui atender e ele estava lá.
Morto, caído no chão, em frente a minha porta.
_ Diga isto
para policia. Não sei de nada. Estava fechado o encanamento do 702. Dona Joana,
do 602 estava soltando vento pelas ventas. O garanhão do seu Roberto deixou a
banheira de hidromassagem ligada e foi para o escritório. Resultado, inundou todo
o apartamento da Dona Joana que já...
_Ô Moacir
deixa de conversa fiada. Liga para Policia, pois o telefone do apartamento não
está funcionando.
Policia.
Pericia. Atraso. Tem certos dias que não é bom acordar, mas em outros
precisamos acordar, vencer os formalismos, os medos de se envolver, o medo de
olhar ao redor. Medo que Carlos sempre possuiu, medo que o fez não reconhecer o
vizinho do lado que faleceu de infarto à sua porta. Neste dia Carlos perdeu o emprego de gerente
da Revendedora de Autos do Joaquim, porém conheceu Letícia, a perita criminal
que lhe acordou do pesadelo no qual vivia. O pesadelo de não se importar com os
outros. Modificou seu ritmo de vida e nunca mais deixou de olhar para os
vizinhos e dizer: Bom Dia!
Ola José!
ResponderExcluirSeu texto é engraçado, tirou a tensão da cena. Colocou um motivo inusitado, fugindo do óbvio que seria o assassinato.
Foi muito criativo. Parabéns!